Sexta-feira

Hoje a imoralidade doeu fundo no meu coração;
doeu tanto porque foi minha.
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Odeio vestir "a carapuça de viver".

Quinta-feira

Le Vivant








Recolho-me da fumaça e me detenho ao filtro. 

Como se a vida fosse uma questão de fôlego
 Como se o recolhimento fosse uma solução para o tempo e suas exigências.

Quarta-feira



Sonhei 
contigo embora nenhum sonho 
possa ter habitantes, tu a quem chamo 
amor, cada ano pudesse trazer 
um pouco mais de convicção a 
esta palavra. É verdade o sonho 
poderá ter feito com que, nesta 
rarefacção de ambos, a tua presença se 
impusesse - como se cada gesto 
do poema te restituísse um corpo 
que sinto ao dizer o teu nome, 
confundindo os teus 
lábios com o rebordo desta chávena 
de café já frio. Então, bebo-o 
de um trago o mesmo se pode fazer 
ao amor, quando entre mim e ti 
se instalou todo este espaço - 
terra, água, nuvens, rios e 
o lago obscuro do tempo 
que o inverno rouba à transparência 
da fontes. É isto, porém, que 
faz com que a solidão não seja mais 
do que um lugar comum saber 
que existes, aí, e estar contigo 
mesmo que só o silêncio me 
responda quando, uma vez mais 
te chamo. 


(Nuno Júdice)

Segunda-feira

Amigos, amigos! O poder à parte.

 Eu vivo, e não peço permissões para ser.
 O poder não me impressiona , antes pressiona... Afasta, dilui e disfarça.
 Por isso a simpatia inútil pelos mendigos e ditos fracassados - prefiro os filmes de guerra e as canções de amor.

Poema de Nuno Júdice


Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: Um desvio no olhar, ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.

II

Segue o teu destino, 

Rega as tuas plantas, 

Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 
A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios. 
Suave é viver 
só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 
Vê de longe 
a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 
Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 


Domingo

Kevin Titzer
























Liberté

O Haver


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura

Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo 

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo 
De ferir tocando, essa forte mão de homem 
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos 

Essa inércia cada vez maior diante do Infinito 
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível 
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento

Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio

Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza 

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido 
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 

De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 

De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos 

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória 
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade 
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto 

Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo 
Infantil de ter pequenas coragens.



(Vinicius de Moraes)

Quinta-feira

Drumundanamente


[...]


Por isso sou triste, orgulhoso: De ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por centro de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
(Drummond)

Quarta-feira


No banco da praça chega o rapaz com sua fumaça tóxica impregnando o mundo de realidade
Com uma quase naturalidade, anuncia a tentativa de suicídio de alguém, num prédio de esquina. Me retiro do local, em precaução à fumaça tóxica
 - de minha parte, medo.
 Da parte dele, delírio.
Mas confirmo a cena narrada - Platéia, prédio, polícia, bombeiros... zombeteiros 
Todos curiosos,  todos esperando ver o que de fato não estariam preparados para ver:
Corpo em queda livre, coração aos farrapos e cérebro esfacelado pelo asfalto.
Todos querendo ver a derrocada. A prova cabal de que vida é uma causa perdida .
Pagariam bilheteria para assistir tal drama?
Para quê? Que fariam eles depois? 
Voltariam para casa contentes e satisfeitos com o espetáculo gratuito?
Ficariam apavorados e haveria gritos histéricos ou alguma catarse?
Que faria aquele povo ao ver a morte como escolha já decidida? O que veriam naquele factum?
Não sei. O tempo e a consciência de estar ali não me permitiram saber o desfecho da história. Opto por virar a esquina sem olhar para trás, mas carrego sem opção este sentimento de humanidade nas mãos e no coração. 

Segunda-feira







Descemos até os confins da existência e nos edificamos com doses da mais alta mediocridade

Procrastinamos nossos sentimentos prolixamente na esperança de ganhar tempo
Ganhamos tempo e desaprendemo-nos

Decididamente secos e áridos
já não bastam lágrimas para tornar o solo fértil, tampouco alegrias
Nosso mar torna-se de uma maneira quase fácil
 meramente salgado

Sábado

Temperamento Natural


Antes mesmo que eu escape às cores que a memória tenta imprimir ao dia -

Sou expurgada mundo afora, num movimento quase intestinal.
Em silêncio  - resisto, persisto...
Mas é impossível negar a objetividade do mundo -
Do sol batendo à janela,
Dos aviões perturbando a minha paz de espírito.
Do travesseiro mal posto,
Do mau gosto.
Da péssima disposição afetiva que é existir.
Acordar? É já um desacordo